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Greve Geral 100 anos: pauta bem definida parou SP

Em 1917, movimento teve adesão total. Luta contra trabalho infantil e exploração das mulheres uniu o povo. Como a reforma da Previdência pode fazer em 2017

Escrito por: Isaías Dalle • Publicado em: 10/03/2017 - 15:21 • Última modificação: 11/03/2017 - 09:56 Escrito por: Isaías Dalle Publicado em: 10/03/2017 - 15:21 Última modificação: 11/03/2017 - 09:56

Reprodução Féretro do espanhol Ineguez, mártir da greve, parte da rua Caetano Pinto

Em 2017, comemoram-se os 100 anos da primeira e mais bem-sucedida Greve Geral brasileira. O movimento, embora tenha atingido outras cidades do país, como Rio de Janeiro, teve seu epicentro e auge na capital de São Paulo, o centro industrial mais avançado.

Segundo diferentes autores que estudaram aquela Greve, um dos principais motivos do sucesso da paralisação – que em julho deixou São Paulo às moscas, como veremos em textos posteriores – foi a escolha acertada das bandeiras de luta, com destaque para a exploração do trabalho infantil e o trabalho opressivo, extenso e noturno das mulheres.

Este momento histórico pode servir de exemplo e motivação para a construção da greve que se pretende realizar neste ano de 2017, um século depois.

O último 8 de Março, Dia Internacional da Mulher, com milhares de militantes nas ruas, foi uma forte demonstração de que a reação popular aos retrocessos que o governo Temer quer impor tende a aumentar. E, como disse o presidente da CUT Vagner Freitas, em recente declaração, ”a proposta de reforma da Previdência será o estopim da chama que vai levar o povo para as ruas”. Para ele, é “só dizer claramente: sua aposentadoria vai acabar”. No próximo dia 15 de março, haverá a Paralisação Nacional contra o Fim da Aposentadoria.

Exploração e fome

A carestia e a falta de produtos alimentícios oprimiam os moradores da cidade naquele 1917. Este foi o pano de fundo para que os sindicalistas passassem a dialogar com o povo, por intermédio de comícios que se concentravam especialmente nos bairros operários do Brás – onde atualmente fica a sede nacional da CUT –, da Mooca, do Ipiranga, Cambuci e do Belenzinho.

À frente da organização dos trabalhadores estavam, inegavelmente, os anarquistas. Italianos, espanhóis e portugueses e seus descendentes, recém-chegados nas levas de imigrantes que aportavam no Brasil em busca de trabalho – escasso na Europa, profundamente afetada pelos efeitos da Primeira Guerra Mundial – e para substituir a mão de obra escrava, depois da libertação oficial, mas não total, dos negros.

Os trabalhadores e trabalhadoras que ainda permaneciam no campo pouca atuação tiveram na Greve Geral de 1917, pela distância geográfica e pela quase total ausência de organização coletiva.

Saques

O problema da falta de comida foi atacado pelos rebelados na base do que os anarquistas chamam de “ação direta”. Para combater os “açambarcadores” (termo da época que poderia ser substituído pelo atual “atravessadores”), armazéns foram saqueados. O caso mais simbólico ocorreu no dia 11 de julho, com a greve já em curso, em ataque aos estoques do Moinho Santista, na Mooca.

Trigo, essencial para a produção de pão, era um dos itens mais cobiçados. Parte desse produto era direcionada aos países europeus conflagrados, pois o preço de exportação era mais alto.

Imprensa apoia

A imprensa, mesmo aquela ligada aos patrões, apoiou as iniciativas de ação direta. As exceções, segundo a pesquisadora Christina da Silva Roquette Lopreato, autora da tese de doutorado “O Espírito da Revolta – a Greve Anarquista de 1917”, foram os diários “A Platea”, “Correio Paulistano” e “Jornal do Comércio”, ligados ao partido conservador e hegemônico do Estado, o Partido Republicano Paulista.

 O governador Altino Arantes, por sua vez, atribuía as ações a “baderneiros” e, argumento mais incisivo, pois apontava para o velho fantasma do inimigo externo, a “elementos estranhos” e espécies “exóticas”, não naturais ao solo brasileiro. A repressão teve entre seus expoentes figuras hoje homenageadas com nomes de ruas e até de bairros, como o delegado Rudge Ramos.

Crianças e mulheres escravizadas

Exposta a questão da carestia e da ausência de alimentos, os próximos passos da ação dos anarcossindicalistas foram atacar, especialmente nas páginas dos jornais libertários e anticlericais “A Plebe” e “A Lanterna”, o uso da mão de obra infantil e adolescente nas fábricas e o trabalho noturno das mulheres, que além da exploração laboral, ainda eram vítimas de assédio sexual nas fábricas.

Com o apelo emocional aos pais, criticando-os por aceitarem suas demissões e se deixarem substituir pelos próprios filhos e esposas, com salários mais baixos (mulheres ganhavam a metade e as crianças, 10%), os anarquistas, seus jornais e comícios emocionaram a população.

A questão das meninas e meninos – estes em maior número nas linhas de produção – chamou a atenção dos jornalistas, especialmente de “A Gazeta”, que numa série de reportagens acompanhou a entrada e saída das crianças nas fábricas, demonstrando toda a miséria representada pela situação.

“Trabalho das 7 da noite às 6 da manhã, recebendo pelas 11 horas de serviço 1$100 (réis). À meia-note permitem que eu descanse 25 minutos, tempo em que destino em parte a uma ligeira refeição. Quando um menino vem a ter muito sono e larga o trabalho indo dormir alguns minutos escondido, acordam-no com um banho de água fria”, narra um menino de 12 anos entrevistado por “A Gazeta”.  Ele ainda diz que “nos mandam esbofetear e dar pontapés. Batem-nos sempre com o balão, que é um pedaço de pau envolvido num pano verde”.Vista atual do trecho da Caetano Pinto de onde provavelmente partiu o funeral de IneguezVista atual do trecho da Caetano Pinto de onde provavelmente partiu o funeral de Ineguez

Sendo mesmo esse ou não o vocabulário e a narrativa precisa do menino entrevistado, a verdade de suas declarações podia ser vista em quaisquer visitas às fábricas. Naquele mesmo ano, chocou a opinião pública a história de um menino que dormiu na fábrica que, após breve pausa nas atividades, era guardada por cães. Esse menino foi morto a dentadas.

Pauta de reivindicações

O movimento de 1917 teve um longo período de maturação. A primeira greve a sacudir São Paulo ocorrera dez anos antes, sem a adesão de todas as fábricas e estabelecimentos comerciais. Mas despertara a consciência política da classe trabalhadora.

Em 1905, já pavimentando o movimento que culminaria em 1917, os anarcossindicalistas substituíram gradualmente a importância das então entidades assistencialistas a partir da fundação, em novembro, da Federação Operária de São Paulo (FOSP), cuja sede ficava no número 110 de rua Líbero Badaró.

Em 1917, as lideranças também organizaram ligas operárias em bairros como a Mooca, Brás, Ipiranga. Funcionavam como células de debate e preparação de materiais impressos de propaganda e agitação.

E prepararam uma versão atualizada da pauta de reivindicação da greve:

- fim do aumento dos gêneros alimentícios

- libertação de grevistas presos (16 haviam sido arrestados no saque ao Moinho Santista, entre outros)

- fim do trabalho de menores de 14 anos

- fim do trabalho noturno para as mulheres e menores de 18 anos

- aumento de 35% nos salários inferiores a 5$000

- 25% de aumento para os demais salários

- 50% a mais para horas extras

Dialogando com a massa que não tinha emprego em empresas, os grevistas também incluíram a exigência de proibição de despejos por falta de pagamento de aluguel, caso os proprietários não aceitassem uma redução de 30% nos preços dessa despesa.

 

Um outro 9 de julho

A capital paulista tem uma grande avenida chamada 9 de Julho. Trata-se de uma “homenagem” à tentativa da elite cafeeira, em 1932, de combater o governo de Getúlio Vargas.

Porém, o ano de 1917 guarda um 9 de julho bem diferente, popular e classista. De triste memória, mas alavancador definitivo da Greve Geral que parou a cidade. Neste dia, o sapateiro espanhol José Ineguez Martinez foi morto pelas forças de repressão.

Naquele mesmo dia, um grupo de grevistas havia impedido uma carroça da Companhia Antarctica Paulista de transportar cerveja, travando-a diante da sede da fábrica, na hoje avenida Presidente Wilson, Mooca. Foi a senha para a polícia partir para a repressão selvagem.

No dia seguinte, o féretro de José Ineguez partiu do número 91 da rua Caetano Pinto – onde fica a atual sede da CUT Nacional, no número 575 – e, acompanhado por milhares, dirigiu-se ao cemitério do Araçá, nos altos do bairro do Pacaembu. Ao longo do trajeto, mulheres compunham a comissão de frente, carregando bandeiras vermelhas anarquistas. Paradas foram feitas no caminho para acalorados comícios.

Antes de o caixão descer à sepultura, três lideranças fizeram discursos – em português, espanhol e italiano, as línguas operárias da cidade. Os jornais da época também registraram emocionante discurso de “uma mulher vestida de preto” – sem que seu nome fosse descrito – que afirmou ter sido o sapateiro “vítima dos mantenedores da ordem, que de par com os exploradores do nosso trabalho, investiram brutalmente contra os que reclamavam pacificamente aquilo que leis permitem”.

A capital paulista tem uma grande avenida chamada 9 de Julho. Trata-se de uma “homenagem” à tentativa da elite cafeeira, em 1932, de combater o governo de Getúlio Vargas. Porém, o ano de 1917 guarda um 9 de julho bem diferente, popular e classista. De triste memória, mas alavancador definitivo da Greve Geral que parou a cidade. Neste dia, o sapateiro espanhol José Ineguez Martinez foi morto pelas forças de repressão.
CUT

Parou geral

A cidade, que já estava em greve, parou nos três dias seguintes. Bondes, quando rodavam, o faziam sem passageiros. Todas as categorias cruzaram os braços, segundo relatos da imprensa da época. O que começou nas indústrias têxteis – especialmente na maior de todas, o Cotonifício Crespi, do irredutível conde Rodolfo Crespi, cujo nome hoje batiza o estádio do Juventus – alastrou-se pela Companhia de Gás e pela Light, responsáveis pelo fornecimento de energia da cidade, e suspendeu a produção de pães, distribuição de leite, cerrou as portas do comércio e suspendeu as atividades de lazer, como os teatros.Durante o funeral, parada na XV de Novembro para comícioDurante o funeral, parada na XV de Novembro para comício

“A Greve Geral se tornou possível graças a uma conjugação de fatores, explorados com argúcia por experientes militantes anarquistas”, diz trecho do livro de Christina Lopreatto. “Ela foi resultado de um trabalho de vários anos de pregação doutrinária e de incitamento à ação direta. Desde o raiar dos novecentos, os anarquistas vinham se dedicando à tarefa de sacudir as energias adormecidas dos trabalhadores”.

Calculam-se em mais de 100 mil trabalhadores e trabalhadoras em greve, numa cidade cuja população somava aproximadamente 550 mil habitantes.

Negociação

Os termos da greve e o atendimento a parte das reivindicações mobilizou a cidade. Neste momento, os anarquistas já faziam alianças tácitas com os comunistas e os socialistas, embora divergissem da estratégia de resolução institucional – partidos, congresso, Estado – dos demais atores políticos. Porém, consideraram a unidade importante naquele momento.

Diante da incapacidade de o governo do Estado e do próprio Brasil de encaminhar uma saída negociada, um grupo de jornalistas notáveis propuseram a criação de um Comitê de Imprensa para negociar o atendimento das negociações.

Falaremos deste ponto na próxima reportagem desta série.

Título: Greve Geral 100 anos: pauta bem definida parou SP, Conteúdo: Em 2017, comemoram-se os 100 anos da primeira e mais bem-sucedida Greve Geral brasileira. O movimento, embora tenha atingido outras cidades do país, como Rio de Janeiro, teve seu epicentro e auge na capital de São Paulo, o centro industrial mais avançado. Segundo diferentes autores que estudaram aquela Greve, um dos principais motivos do sucesso da paralisação – que em julho deixou São Paulo às moscas, como veremos em textos posteriores – foi a escolha acertada das bandeiras de luta, com destaque para a exploração do trabalho infantil e o trabalho opressivo, extenso e noturno das mulheres. Este momento histórico pode servir de exemplo e motivação para a construção da greve que se pretende realizar neste ano de 2017, um século depois. O último 8 de Março, Dia Internacional da Mulher, com milhares de militantes nas ruas, foi uma forte demonstração de que a reação popular aos retrocessos que o governo Temer quer impor tende a aumentar. E, como disse o presidente da CUT Vagner Freitas, em recente declaração, ”a proposta de reforma da Previdência será o estopim da chama que vai levar o povo para as ruas”. Para ele, é “só dizer claramente: sua aposentadoria vai acabar”. No próximo dia 15 de março, haverá a Paralisação Nacional contra o Fim da Aposentadoria. Exploração e fome A carestia e a falta de produtos alimentícios oprimiam os moradores da cidade naquele 1917. Este foi o pano de fundo para que os sindicalistas passassem a dialogar com o povo, por intermédio de comícios que se concentravam especialmente nos bairros operários do Brás – onde atualmente fica a sede nacional da CUT –, da Mooca, do Ipiranga, Cambuci e do Belenzinho. À frente da organização dos trabalhadores estavam, inegavelmente, os anarquistas. Italianos, espanhóis e portugueses e seus descendentes, recém-chegados nas levas de imigrantes que aportavam no Brasil em busca de trabalho – escasso na Europa, profundamente afetada pelos efeitos da Primeira Guerra Mundial – e para substituir a mão de obra escrava, depois da libertação oficial, mas não total, dos negros. Os trabalhadores e trabalhadoras que ainda permaneciam no campo pouca atuação tiveram na Greve Geral de 1917, pela distância geográfica e pela quase total ausência de organização coletiva. Saques O problema da falta de comida foi atacado pelos rebelados na base do que os anarquistas chamam de “ação direta”. Para combater os “açambarcadores” (termo da época que poderia ser substituído pelo atual “atravessadores”), armazéns foram saqueados. O caso mais simbólico ocorreu no dia 11 de julho, com a greve já em curso, em ataque aos estoques do Moinho Santista, na Mooca. Trigo, essencial para a produção de pão, era um dos itens mais cobiçados. Parte desse produto era direcionada aos países europeus conflagrados, pois o preço de exportação era mais alto. Imprensa apoia A imprensa, mesmo aquela ligada aos patrões, apoiou as iniciativas de ação direta. As exceções, segundo a pesquisadora Christina da Silva Roquette Lopreato, autora da tese de doutorado “O Espírito da Revolta – a Greve Anarquista de 1917”, foram os diários “A Platea”, “Correio Paulistano” e “Jornal do Comércio”, ligados ao partido conservador e hegemônico do Estado, o Partido Republicano Paulista.  O governador Altino Arantes, por sua vez, atribuía as ações a “baderneiros” e, argumento mais incisivo, pois apontava para o velho fantasma do inimigo externo, a “elementos estranhos” e espécies “exóticas”, não naturais ao solo brasileiro. A repressão teve entre seus expoentes figuras hoje homenageadas com nomes de ruas e até de bairros, como o delegado Rudge Ramos. Crianças e mulheres escravizadas Exposta a questão da carestia e da ausência de alimentos, os próximos passos da ação dos anarcossindicalistas foram atacar, especialmente nas páginas dos jornais libertários e anticlericais “A Plebe” e “A Lanterna”, o uso da mão de obra infantil e adolescente nas fábricas e o trabalho noturno das mulheres, que além da exploração laboral, ainda eram vítimas de assédio sexual nas fábricas. Com o apelo emocional aos pais, criticando-os por aceitarem suas demissões e se deixarem substituir pelos próprios filhos e esposas, com salários mais baixos (mulheres ganhavam a metade e as crianças, 10%), os anarquistas, seus jornais e comícios emocionaram a população. A questão das meninas e meninos – estes em maior número nas linhas de produção – chamou a atenção dos jornalistas, especialmente de “A Gazeta”, que numa série de reportagens acompanhou a entrada e saída das crianças nas fábricas, demonstrando toda a miséria representada pela situação. “Trabalho das 7 da noite às 6 da manhã, recebendo pelas 11 horas de serviço 1$100 (réis). À meia-note permitem que eu descanse 25 minutos, tempo em que destino em parte a uma ligeira refeição. Quando um menino vem a ter muito sono e larga o trabalho indo dormir alguns minutos escondido, acordam-no com um banho de água fria”, narra um menino de 12 anos entrevistado por “A Gazeta”.  Ele ainda diz que “nos mandam esbofetear e dar pontapés. Batem-nos sempre com o balão, que é um pedaço de pau envolvido num pano verde”. Sendo mesmo esse ou não o vocabulário e a narrativa precisa do menino entrevistado, a verdade de suas declarações podia ser vista em quaisquer visitas às fábricas. Naquele mesmo ano, chocou a opinião pública a história de um menino que dormiu na fábrica que, após breve pausa nas atividades, era guardada por cães. Esse menino foi morto a dentadas. Pauta de reivindicações O movimento de 1917 teve um longo período de maturação. A primeira greve a sacudir São Paulo ocorrera dez anos antes, sem a adesão de todas as fábricas e estabelecimentos comerciais. Mas despertara a consciência política da classe trabalhadora. Em 1905, já pavimentando o movimento que culminaria em 1917, os anarcossindicalistas substituíram gradualmente a importância das então entidades assistencialistas a partir da fundação, em novembro, da Federação Operária de São Paulo (FOSP), cuja sede ficava no número 110 de rua Líbero Badaró. Em 1917, as lideranças também organizaram ligas operárias em bairros como a Mooca, Brás, Ipiranga. Funcionavam como células de debate e preparação de materiais impressos de propaganda e agitação. E prepararam uma versão atualizada da pauta de reivindicação da greve: - fim do aumento dos gêneros alimentícios - libertação de grevistas presos (16 haviam sido arrestados no saque ao Moinho Santista, entre outros) - fim do trabalho de menores de 14 anos - fim do trabalho noturno para as mulheres e menores de 18 anos - aumento de 35% nos salários inferiores a 5$000 - 25% de aumento para os demais salários - 50% a mais para horas extras Dialogando com a massa que não tinha emprego em empresas, os grevistas também incluíram a exigência de proibição de despejos por falta de pagamento de aluguel, caso os proprietários não aceitassem uma redução de 30% nos preços dessa despesa.   Um outro 9 de julho A capital paulista tem uma grande avenida chamada 9 de Julho. Trata-se de uma “homenagem” à tentativa da elite cafeeira, em 1932, de combater o governo de Getúlio Vargas. Porém, o ano de 1917 guarda um 9 de julho bem diferente, popular e classista. De triste memória, mas alavancador definitivo da Greve Geral que parou a cidade. Neste dia, o sapateiro espanhol José Ineguez Martinez foi morto pelas forças de repressão. Naquele mesmo dia, um grupo de grevistas havia impedido uma carroça da Companhia Antarctica Paulista de transportar cerveja, travando-a diante da sede da fábrica, na hoje avenida Presidente Wilson, Mooca. Foi a senha para a polícia partir para a repressão selvagem. No dia seguinte, o féretro de José Ineguez partiu do número 91 da rua Caetano Pinto – onde fica a atual sede da CUT Nacional, no número 575 – e, acompanhado por milhares, dirigiu-se ao cemitério do Araçá, nos altos do bairro do Pacaembu. Ao longo do trajeto, mulheres compunham a comissão de frente, carregando bandeiras vermelhas anarquistas. Paradas foram feitas no caminho para acalorados comícios. Antes de o caixão descer à sepultura, três lideranças fizeram discursos – em português, espanhol e italiano, as línguas operárias da cidade. Os jornais da época também registraram emocionante discurso de “uma mulher vestida de preto” – sem que seu nome fosse descrito – que afirmou ter sido o sapateiro “vítima dos mantenedores da ordem, que de par com os exploradores do nosso trabalho, investiram brutalmente contra os que reclamavam pacificamente aquilo que leis permitem”. A capital paulista tem uma grande avenida chamada 9 de Julho. Trata-se de uma “homenagem” à tentativa da elite cafeeira, em 1932, de combater o governo de Getúlio Vargas. Porém, o ano de 1917 guarda um 9 de julho bem diferente, popular e classista. De triste memória, mas alavancador definitivo da Greve Geral que parou a cidade. Neste dia, o sapateiro espanhol José Ineguez Martinez foi morto pelas forças de repressão. CUT Parou geral A cidade, que já estava em greve, parou nos três dias seguintes. Bondes, quando rodavam, o faziam sem passageiros. Todas as categorias cruzaram os braços, segundo relatos da imprensa da época. O que começou nas indústrias têxteis – especialmente na maior de todas, o Cotonifício Crespi, do irredutível conde Rodolfo Crespi, cujo nome hoje batiza o estádio do Juventus – alastrou-se pela Companhia de Gás e pela Light, responsáveis pelo fornecimento de energia da cidade, e suspendeu a produção de pães, distribuição de leite, cerrou as portas do comércio e suspendeu as atividades de lazer, como os teatros. “A Greve Geral se tornou possível graças a uma conjugação de fatores, explorados com argúcia por experientes militantes anarquistas”, diz trecho do livro de Christina Lopreatto. “Ela foi resultado de um trabalho de vários anos de pregação doutrinária e de incitamento à ação direta. Desde o raiar dos novecentos, os anarquistas vinham se dedicando à tarefa de sacudir as energias adormecidas dos trabalhadores”. Calculam-se em mais de 100 mil trabalhadores e trabalhadoras em greve, numa cidade cuja população somava aproximadamente 550 mil habitantes. Negociação Os termos da greve e o atendimento a parte das reivindicações mobilizou a cidade. Neste momento, os anarquistas já faziam alianças tácitas com os comunistas e os socialistas, embora divergissem da estratégia de resolução institucional – partidos, congresso, Estado – dos demais atores políticos. Porém, consideraram a unidade importante naquele momento. Diante da incapacidade de o governo do Estado e do próprio Brasil de encaminhar uma saída negociada, um grupo de jornalistas notáveis propuseram a criação de um Comitê de Imprensa para negociar o atendimento das negociações. Falaremos deste ponto na próxima reportagem desta série.



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