A bandeira da inércia

06/07/2017 - 00:00

Alguns discursos de trabalhadores, tanto de servidores públicos como da iniciativa privada, têm ganhado excessivo espaço ultimamente, cultuando o desânimo generalizado. Mais que isso, a tendência é de se propagar a submissão, a resignação, que leva os trabalhadores a pensar que nada vai adiantar, que as lutas não surtirão efeito e que o melhor é não fazer nada mesmo.

As reuniões de categorias viraram um muro infinito de lamentações, onde os encaminhamentos finais apontam o precipício como saída única, diante do emaranhado de notícias e ações que visam prejudicar, ou escravizar, a classe trabalhadora brasileira. O momento, por sua vez, é o mais grave da nossa história.

Ocorre que a mídia brasileira vem desqualificando, há décadas, tudo que é ligado a sindicato, a organização dos trabalhadores. Qualquer reivindicação de direitos é criminalizada; qualquer iniciativa de buscar direitos é avaliada como abuso, como exorbitância, como algo além do merecido, mesmo se tratando de direitos.

Para os grandes grupos de comunicação os sindicalistas são todos corruptos e estão à frente dos sindicatos somente para enganar os trabalhadores. Para os patrões um mundo ideal é um mundo sem os sindicatos.E essa campanha parece que tem dado certo. A quantidade de filiados por categoria tem diminuído drasticamente nos últimos anos, ao contrário do que acontecia há 20, 30 anos. E quem se beneficia com isso?

Quando os próprios trabalhadores dizem que o seu sindicato não faz nada, que o sindicato é do partido tal, da central xis, que tem interesses outros, eles estão somente repetindo o que a mídia diz todos os dias nos seus ouvidos, o que estampa na capa dos jornais e, enfim, é realmente muito difícilalguém pensar diferente nessa hora.

Nunca houve uma campanha tão grande contra os sindicatos, e contra os trabalhadores por extensão. E note que essa campanha chega justamente no momento em que o capital exige a retirada dos direitos e a escravização do trabalhador, com a votação de emendas à Constituição Federal, exatamente para retirar os direitos nela consagrados. No momento em que se ataca os direitos dos trabalhadores, nada melhor que eles sejam levados a não confiar nas suas organizações. Simples assim.

Outros avaliam,com alto grau de pessimismo, que as categorias estão, ou são, despolitizadas. É paradoxal pensar nisso num mundo onde jamais se disponibilizou tanta informaçãocomo agora, com a internet. O fato é que, a depender de em quê o trabalhador quer acreditar, ele vai se informar exatamente neste ou naquele veículo que fala o que ele quer ouvir. O mesmo presidente que a mídiaincensou e elevou num pedestal, agora é descartado por ela,que exige a sua saída. Isso no prazo de um ano. É nítido o interesse velado pela notícia parcial, a disposição e a ganância da mídia com o único objetivo dese beneficiar de algum modo, passando por cima do jornalismo, da ética e da verdade.

Quem quer os trabalhadores cada vez mais despolitizados, quietos, resignados, achando que não adianta lutar é a mídia e as empresas que representam o capital. Quanto mais a população e os trabalhadores desacreditarem das suas organizações sindicais, mais fácil será tirar os direitos, ameaçar e precarizar as relações de emprego. É a bandeira da inércia que eles fazem tremular com todo o gosto, apostando na apatia do trabalhador e garantindo que não haverá qualquer iniciativa de luta.

E é nessa hora que é preciso refletir o papel de cada trabalhador, individualmente, diante das ameaças aos seus direitose diante dos sindicatos. Se sabemos que esses mesmos direitos,que hoje estão sendo ameaçados, são fruto de lutas penosas de trabalhadores que vieram antes de nós, é em respeito à memória desses trabalhadores que devemos tomar as nossas posições. O sindicalizado não pode terceirizar a luta, deixando que o sindicato seja o ator das mobilizações. Quem fecha o local de trabalho, quem vai pra rua, quem se ergue com decisão pelos seus direitos é o trabalhador. É ele que rompe com o chefe que opta pelo seu cargo em detrimento dos direitos dos colegas e da sua categoria. É ele, o trabalhador, que se indigna com toda a conjuntura e com a opressão velada aos movimentos reivindicatórios.

Aos sindicatos cabe, por demanda dos próprios trabalhadores, organizar as lutas, tomar as providências legais de proteção à categoria – filiados ou não –,representá-la junto à Justiça e dar os diversos suportes para que as lutas sejam efetivamente travadas. Mas quem luta, quem cria as demandas nas assembleias, nos congressos, nas reuniões, nas instâncias organizativas é, intransferivelmente, o trabalhador.

Todo mundo quer um sindicato forte e atuante, uma confederação representativa e firme. Mas ninguém se dispõe a se doar, a doar o seu tempo, esforço e capacidades pra colaborar com tudo isso. Toda direção de sindicato é composta de trabalhadores, assim como os delegados de base, os representantes dos órgãos, das regiões e dos diferentes locais de trabalho. São trabalhadores eleitos por cada filiado que, em essência, se dispõem a trabalhar pelo coletivo da categoria, oferecendo o seu tempo e suas energias para o conjunto dos trabalhadores daquela base.

Estes que se apresentam, que se voluntarizam para doar suas energias, suas qualidades, seus conhecimentos, quando poderiam estar cuidando das suas vidas, do seu trabalho, do seu estudo ou talvez da sua aposentadoria, jamais vão ter o reconhecimento dos patrões ou das mídias, nem terão os nomes citados em vazias frases de efeito. Eles fazem parte de uma ínfima minoria.

A gente sabe que todas as conquistas dos trabalhadores ao longo dos últimos 200 anos no Brasil teve a participação decisiva de ilustres e determinados trabalhadores. Eles foram invisibilizados pela história, como muitos outros o são todos os dias, na maioria dos sindicatos pelo país afora. Eles não estão na mídia, não têm rosto e nem nome. E nem precisam. Eles estão fazendo a sua parte. Simplesmente a sua parte.

O que nos cabe hoje,urgentemente, é tirar a bandeira da inércia do alto dos mastros que nós mesmos hasteamos. Temos de combatera inatividade, a indecisão, a indolência, a inércia, a negligência, a ociosidade, a preguiça, a quietação, a tibieza e a tristeza. Se nós, trabalhadores, não pudermos fazer nada por este país, quem poderá?

A desgraça de quem não gosta de política é que é governado por quem gosta.