Escrito por: Luiz R Cabral
De norte a sul do país, milhares de endereços levam nomes de torturadores, assassinos e criminosos de um dos períodos mais sombrios da história do Brasil, a ditadura militar. Iniciativas visam substituir nomes
Apesar do reconhecimento dos crimes da ditadura militar (1964–1985) e dos esforços para resgatar a memória das vítimas, diversas cidades brasileiras ainda mantêm logradouros que homenageiam figuras ligadas à repressão, à tortura e ao autoritarismo. Generais, coronéis e agentes da ditadura seguem dando nome a ruas, pontes, praças e avenidas, perpetuando a ideia de que essas figuras foram, de alguma forma, heróis no país em um período, que, na verdade, foi marcado por censura, violência e perseguições políticas.
No entanto, há iniciativas para que haja uma reparação. Projetos visam trocar nomes de carrascos da ditadura por figuras emblemáticas que se destacaram pela resistência ao regime e pela defesa da democracia.
Há figuras conhecidas que denominam ruas e avenidas em diversas cidades pelo país. Um estudo da Universidade de São Paulo (USP), de 2021, denominado Ditamapa, encontrou diversas referências as essas ‘personalidades’ da ditadura, entre elas Humberto Castelo Branco, primeiro presidente militar; Artur da Costa e Silva, segundo presidente militar; Emílio Garrastazu Médici, terceiro presidente militar; Ernesto Geisel, quarto presidente militar; João Figueiredo, quinto e último presidente militar.
Não é só isso
Mais de 3,7 mil logradouros públicos no Brasil ainda levam nomes de figuras ligadas à ditadura militar (1964–1985), incluindo torturadores do regime. O levantamento de 2021 revelou que ruas, avenidas e praças seguem homenageando personagens associados a violações de direitos humanos. Entre os casos mais notórios, está uma rua no Ceará que leva o nome do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, um dos principais nomes da tortura política do período.
Além das vias, praças e aparelhos públicos, seis municípios brasileiros mantêm referências diretas a generais que governaram o país durante o regime: Medicilândia (PA), Presidente Médici (RO), Presidente Médici (MA), Presidente Castelo Branco (PR), Presidente Castello Branco (SC) e Presidente Figueiredo (AM). A manutenção dessas homenagens tem sido alvo de críticas e iniciativas para promover a memória das vítimas da ditadura.
Em algumas cidades, avanços já foram registrados. Em Belo Horizonte, a antiga Rua Dan Mitrione — em referência ao agente do FBI envolvido no treinamento de tortura — foi renomeada como Rua José Carlos da Matta Machado, em homenagem a uma vítima do regime militar. A iniciativa faz parte de um esforço para reavaliar homenagens e valorizar aqueles que resistiram ao autoritarismo.
Além desses nomes há outras figuras emblemáticas que grande parte da população pode não saber que se tratam de carrascos da ditadura.
Confira a seguir, 10 endereços que ainda levam os nomes de personagens centrais desse passado sombrio:
— Empresário e financiador de práticas de tortura.
– Ministro do Exército (1974–1979), linha-dura contrária à abertura política.
– Militar ultranacionalista e defensor do regime.
– Envolvido em operações repressivas no Nordeste.
– Ideólogo do regime e chefe do SNI.
– Delegado do DOPS/SP, responsável por torturas e mortes.
– Militar ligado à repressão na Amazônia.
– Militar influente no golpe de 1964.
– Oficial do Exército envolvido em operações repressivas.
– Ex-ministro da Justiça e da Guerra, participou do golpe de 1964.
Processo Lento
Em São Paulo, o processo de mudança avança de forma mais lenta. Em 2016, o então prefeito Fernando Haddad (PT) sancionou a alteração do nome do Elevado Costa e Silva para Elevado João Goulart, em referência ao presidente deposto pelo golpe de 1964. No entanto, outras mudanças na capital paulista seguem emperradas.
O vereador Nabil Bonduki (PT) propôs o projeto de lei "Ainda Estou Aqui", que visa substituir nomes de vias e equipamentos públicos que homenageiam figuras da repressão por nomes de vítimas da ditadura. A iniciativa busca resgatar a memória daqueles que enfrentaram perseguições e violações de direitos humanos. Paralelamente, a Justiça determinou que a Prefeitura de São Paulo elabore um cronograma para a renomeação desses logradouros, mas até o momento a gestão de Ricardo Nunes não apresentou um plano concreto. Atualmente, a cidade tem mais de 30 locais que mantêm homenagens a figuras do regime.
Entre as propostas de alteração em São Paulo, estão:
A discussão sobre a revisão desses nomes segue em curso, refletindo a luta pelo direito à memória e pela preservação histórica no Brasil.