Falta de recursos para o campo e segurança alimentar são temas de debate no FSM
O corte nos investimentos sociais e os reflexos no campo e na agricultura familiar foram debatidos na Tenda da CUT, no Fórum Social Mundial 2018
Publicado: 15 Março, 2018 - 19h18
Escrito por: Rosely Rocha, especial para Portal CUT

As perdas nos investimentos sociais, especialmente para a reforma agrária, nos programas de aquisição de alimentos, Bolsa Família, e outros desmontes de políticas públicas determinados pelo golpista e ilegítimo Michel Temer (MDB-SP) foram duramente criticadas na Oficina Produção de Alimentos e Soberania Alimentar, realizada nesta quinta-feira (15), na Tenda da CUT, no Fórum Mundial Social 2018 (FSM2018), em Salvador, Bahia.
É um ataque a um direito humano essencial que é a alimentação, criticou a presidente do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), Elisabetta Recine.
“O que está evidenciado, neste momento, é um retrocesso nas conquistas, nas reduções das desigualdades”.
Para Elisabetta, é inadmissível o Brasil voltar ao Mapa da Fome por causa das medidas de redução de gastos nas políticas de saúde, nos programas sociais e no programa de apoio a agricultura familiar.
“Precisamos resistir, conversar com a sociedade brasileira para que ela perceba que não é admissível que haja fome e desigualdade no Brasil. O país fica pior para todos, não só para quem tem fome”, disse a dirigente.
Os avanços durante os governos Lula e Dilma
O professor Sérgio Sauer, da Universidade de Brasília (UnB), lembrou que o Brasil avançou bastante no direito à alimentação durante os governos Lula e Dilma. Mas, o golpe e a política de austeridade, com o corte de 96% nos programas sociais, como o programa de aquisição de alimentos, o Minha Casa Minha Vida, Luz para Todos, e a retirada de 1,5 milhão de famílias beneficiárias do Bolsa Família, entre outras perdas de direitos, deixaram mais vulnerável a população.
“O primeiro aspecto que afeta as famílias, é a alimentação”, diz o professor, que complementa: “A política de valorização do salário mínimo nos governos Lula e Dilma, foi um programa chave de combate à fome e a pobreza, mas agora com reajustes abaixo da inflação, tem o menor valor em 24 anos”.
Agricultura Familiar e Segurança Alimentar
Com severas críticas à bancada ruralista, à liberação do uso de agrotóxicos cada vez maior na agricultura, os presentes ao debate defenderam o uso sustentável da terra e da água, por meio da agricultura familiar.
“70% dos alimentos consumidos pela população brasileira vêm da agricultura familiar, mas a grande concentração de terras em poder do latifundiário, das grandes empresas internacionais prejudica a segurança alimentar”, disse Elisângela Araújo, diretora executiva da CUT.
Para a dirigente, a falta de estratégia, de investimento econômico na produção de uma alimentação saudável se reflete na saúde da população.
“Pessoas estão morrendo por causa de alimentos envenenados com o uso excessivo de agrotóxicos. Ter direito à segurança alimentar é direito à vida”, disse Elisângela.
Mas, tem saída, afirmou o presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores Rurais (Contag), Aristides Veras. Segundo ele, o caminho é a agricultura orgânica, de sustentabilidade.
“É preciso valorizar esse nicho importante de agricultura sustentável, com produtos orgânicos ou agro florestais, preservando o meio ambiente e mananciais”.
Aristides disse que, no mundo inteiro a agricultura é subsidiada, mas aqui é fortemente industrial. Por isso, a importância dos agricultores familiares disputarem a qualidade do produto e não somente o comércio, porque alimento saudável combate doenças, ao contrário do agronegócio que envenena os alimentos consumidos.
“Não se preserva a natureza jogando veneno na natureza, nas águas”.
Para Carmem Foro, vice-presidenta da CUT, o tema do direito à terra e alimentação é um tema mundial, mas no Brasil, a fome, por exemplo, só foi de fato enfrentada pelo governo Lula que, no dia da posse do primeiro mandato disse que o objetivo principal dele era que todos os brasileiros fizessem três refeições por dia. “E, com isso ele acabou com a fome no Brasil”
“Estamos falando de uma questão estrutural que o Brasil enfrenta há muito tempo, mas só no governo Lula, como decisão política e pessoal dele, passamos a tratar desse problema”, disse Carmen lembrando que as políticas públicas do ex-presidente ajudaram a tirar o Brasil do Mapa da Fome.
“Mas, agora, com esse governo golpista, corremos o risco de voltar”.
Para Carmen, é estratégico que se façam debates sobre o orçamento em políticas públicas para a agricultura familiar. É preciso fazer do campo brasileiro um espaço digno de vida, e não de miséria”.