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Resistência da classe trabalhadora marcou a luta contra a ditadura militar no Brasil

Greve e enfrentamentos fizeram da classe trabalhadora a base para o fim do regime militar no Brasil que durou 21 anos

Publicado: 04 Abril, 2025 - 14h03 | Última modificação: 04 Abril, 2025 - 14h18

Escrito por: Luiz R Cabral | Editado por: André Accarini

Arquivo público do Estado de São Paulo
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Repressão policial a trabalhadores em manifestação no ABC paulista durante a greve de 1979

No período mais violento, repressor e antidemocrático do Brasil, entre 1964 e 1985, durante a ditadura militar no país, não foram poucas as histórias e casos que vieram à tona de perseguição política, torturas, assassinatos e desaparecimentos de brasileiros e brasileiras que se opunham ao regime, defendendo a liberdade, a justiça social, enfim, a democracia.

Políticos, militantes, estudantes e até mesmo cidadãos comuns, de todas as idades, foram vítimas da ditadura. Mas, para além desses setores, a classe trabalhadora e suas representações, ou seja, os sindicatos, tiveram importante papel para a reconquista da democracia, o fim da ditadura, em 1985.

Com o golpe, o Comando Geral dos Trabalhadores (CGT), a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (CONTAG) e as Ligas Camponesas foram violentamente perseguidas, sedes de sindicatos foram invadidas, seus dirigentes presos, cassados, torturados e até mesmo assassinados. Mas, para impedir qualquer possibilidade de reação dos trabalhadores, foi imposta uma legislação de cerceamento das liberdades democráticas, como a lei de greve, a lei do fim da estabilidade no emprego, a lei de segurança nacional, a lei de imprensa, entre outras.

O caminho foi cruel

Após o golpe de 1964, até 1971, o regime militar assumiu o comando de 573 organizações trabalhistas, de sindicatos a confederações do campo e da cidade. A medida, executada por policiais e agentes civis, esvaziou o poder reivindicativo das entidades, transformando-as em extensão do Estado. Em 1967, o governo Castelo Branco ressuscitou o atestado ideológico, mecanismo criado no Estado Novo de Vargas, para barrar opositores em eleições sindicais.

A partir de 1965, os sindicatos perderam seu caráter político, reduzidos a oferecer somente assistência social. Esse modelo só começou a ruir no final dos anos 1970, quando greves autônomas desafiaram a ordem imposta pelos militares.

O ABC como Palco da Resistência

Na segunda metade dos anos 1970, operários de São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte protagonizaram paralisações contra baixos salários e a política econômica do regime. As demandas variavam, mas convergiam em bandeiras como autonomia sindical e melhores condições de trabalho.

O ABC paulista, coração da indústria automotiva e eletrônica, tornou-se o epicentro das mobilizações. Entre 1977 e 1979, metalúrgicos da região paralisaram fábricas, exigindo o fim do imposto sindical e da intervenção estatal. O movimento ganhou contornos políticos, com críticas abertas à ditadura.

A Greve que ‘trincou’ a ditadura

Em 13 de março de 1979, metalúrgicos de São Bernardo e Diadema cruzaram os braços, rejeitando a proposta patronal de 44% de reajuste e exigindo 78%. Com o sindicato lotado, a primeira assembleia foi transferida para o estádio da Vila Euclides. Liderados por Luiz Inácio Lula da Silva, então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos, cerca de 60 mil trabalhadores ocuparam o gramado. Sem microfones, as palavras de Lula ecoavam em coro pela multidão.

Cinco dias depois, em 18 de março, uma nova assembleia reuniu famílias inteiras no mesmo local. Em discurso marcante, Lula rebateu a tese oficial de que salários altos causavam inflação: “Arrocharam nossos ganhos por 15 anos, e a inflação segue lá no alto”, afirmou. A greve continuou, mesmo após a Justiça declará-la ilegal.

A repressão se intensificou. Em 23 de março, o governo interveio nos sindicatos do ABC. Diante da pressão, Lula propôs uma trégua de 45 dias em 27 de maio, encerrando seu discurso com um alerta: "Que ninguém ouse duvidar da capacidade de luta dos trabalhadores".

Em 13 de maio, os metalúrgicos aceitaram um reajuste de 63%, encerrando a greve. A intervenção foi suspensa, e a diretoria eleita retomou o controle do sindicato.

A Prisão de Lula
Em 19 de abril de 1980, agentes da repressão prenderam Lula em sua casa, sob a acusação de "subversão" pela Lei de Segurança Nacional. Ele ficou 31 dias detido no DOPS de São Paulo, ao lado de outros líderes sindicais.

A Década de 1980 e a fragmentação
Entre 1979 e 1981, o chamado "Novo Sindicalismo" conquistou espaços em setores estratégicos. Assembleias eram vigiadas, e as disputas entre sindicalistas autênticos e os chamados ‘pelegos’ (aliados ao governo) se acirraram. A rejeição ao imposto sindical unificou parte do movimento, mas também aprofundou divisões.

No início da década de 1980, em plena ditadura militar, duas importantes ações históricas da classe trabalhadora deram origem àquela que se tornaria a maior central sindical da América Latina e quinta maior do mundo, a CUT.

A 1ª Conferência Nacional das Classes Trabalhadoras, a Conclat, primeira grande reunião intersindical no Brasil desde o golpe de 1964, realizada na Praia Grande, litoral de SP, entre 21 e 23 de agosto daquele ano

À época, o movimento sindical estava se rearticulando após anos de repressão. Ao todo, 5.036 sindicalistas de 1.091 entidades, debateram questões urgentes da classe trabalhadora, nos dias 21, 22 e 23 de agosto de 1981. Além dos sindicalistas, centenas de apoiadores e delegações internacionais e todas as correntes de pensamento participaram da Conferência.

Os temas prioritários discutidos na Conclat, diziam respeito aos ataques aos direitos da classe trabalhadora, como o direito ao trabalho, sindicalismo, saúde e previdência social, políticas salarial, econômica, agrária e problemas nacionais. Porém, acima de tudo, a luta era pela reconquista da democracia, que era usurpada pelo regime militar – um período de em que a classe trabalhadora sofreu na pele todos os retrocessos e horrores da ditadura.

Como resultado da Conclat, foi criada a Comissão Nacional Pró-CUT que, dois anos depois, deu origem à Central Única dos Trabalhadores. Em 1983, o Congresso Nacional da Classe Trabalhadora (Conclat) cristalizou a ruptura: foi fundada a Central Única dos Trabalhadores, em 28 de agosto daquele ano em São Bernardo do Campo.

Leia mais: O Conclat e A Conclat: saiba o que significam esses momentos históricos para a CUT

A CUT como Ator Político

A CUT surgiu como representação sindical da classe trabalhadora e projeto político, defendendo democracia, justiça social, distribuição de renda, igualdade de oportunidades e direitos sociais. Participou ativamente da campanha pelas Diretas Já e da Assembleia Constituinte, que resultou na Constituição de 1988.

Em nota publicada o ano passado, ao trazer um resgate histórico da ditadura para reforçar a defesa de democracia, em especial nos dias de hoje em que setores extremistas da direita ainda tentam tomar o poder de assalto, a Central reafirmou seu compromisso com a memória da ditadura: "Exigimos verdade, justiça e reparação. Sem liberdades democráticas, não há avanços para a classe trabalhadora".

Com mais de quatro décadas de história, a CUT segue como referência na luta por direitos dos trabalhadores e combatente costumas de qualquer ação antidemocrácita e ditatorial.

“Ditadura Nunca Mais! Punição para os Golpistas de ontem e de hoje!”, encerra a nota citada.