Escrito por: Leonardo Wexell Severo
Campanha busca garantir transparência e imparcialidade no julgamento de presos políticos
Campanha mobiliza observadores nacionais e internacionais contra a impunidade
Conforme os organizadores da campanha “Somos todos observadores”, a postergação das datas do julgamento visa unicamente a desmobilização, a fim de diminuir a pressão para que, sem acompanhamento, o caso seja mais facilmente abafado. Após mais de três anos, Adalberto Castro, Arnaldo Quintana, Felipe Benítez Balmori, Néstor Castro e Rubén Villalva, cinco camponeses pobres que lutavam pela terra continuam encarcerados e deverão ser julgados entre os dias 27 de julho e 28 de agosto na capital, Assunção.
SUCESSÃO DE MENTIRAS - “O processo fiscal e a atuação judicial estiveram viciados, cheios de irregularidades, e a acusação foi feita sem fundamento. Acusam os camponeses de homicídio doloso, com intencionalidade, sem que tenham provado que hajam disparado uma arma sequer; os acusam de invasão de um imóvel alheio, porém as terras onde ocorreu o massacre são do Estado paraguaio; os acusam de associação criminosa por organizar-se por lutar por um pedaço de terra”, declarou Cristina Coronel do Serviço de Paz e Justiça do Paraguai (Serpaj-Py), condenando a farsa.
Também integrante do movimento de solidariedade, Cecília Vuyk lembra que ao longo de mais de mil dias os presos enfrentaram as mais bárbaras injustiças, orientadas a ratificar uma “sentença” feita sob encomenda para encobrir os verdadeiros responsáveis pelo massacre. Por isso a questão dos observadores é tão importante, analisa, “pois é uma iniciativa de vigilância cidadã independente sobre o desenvolvimento do juízo oral e público a fim de garantir que a justiça prevaleça”. Afinal, pondera, “sem justiça e sem a plena vigência dos direitos humanos, nunca teremos uma verdadeira democracia”.
RELEMBRANDO - Com cerca de dois mil hectares, a terra que pertence ao Estado paraguaio foi ocupada pelos camponeses e suas famílias. Eles haviam solicitado ao governo Lugo sua desapropriação para fins de reforma agrária, mas atendendo aos interesses da família Riquelme - ligada à ditadura de Alfredo Stroessner (1954-1989) -, um juiz e uma promotora ordenaram sua retirada do local. À frente da ação, que contava com 300 militares e apoio de helicóptero, encontrava-se o chefe do Grupo Especial de Operações (GEO), irmão do tenente-coronel Alcides Lovera, chefe da segurança do presidente, um dos primeiros a cair morto, precipitando o tiroteio.
FRANCO-ATIRADORES - “O fato é que os camponeses não tinham armas de grosso calibre e os policiais foram mortos com armas de guerra. Os tiros iniciais vieram do monte e também do helicóptero, com o uso de franco-atiradores”, relatou Mariano Castro, pai dos presos Alberto e Nestor, e também de Adolfo, assassinado no tiroteio.
Segundo Mariano a extrema direita manipulou o “confronto” como combustível para o golpe. A ação guarda muita similaridade ao procedimento utilizado pela CIA em Puente Laguno, na Venezuela, durante o golpe contra o presidente Hugo Chávez, questionamento que cresce à medida que se comprova o treinamento de vários membros da elite da GEO por militares estadunidenses na Colômbia, durante o governo fascista de Álvaro Uribe.
Antonio Lisboa, secretário de Relações Internacionais da CUT
“Até agora não há uma única investigação da Promotoria sobre a atuação da Polícia, absolutamente nenhuma. Tudo é voltado e montado para incriminar os camponeses. São presos políticos, pois o Estado não permite que se mostre o que houve em Curuguaty”, acrescentou Cecília Vuyk.
Para o secretário de Relações Internacionais da Central Única dos Trabalhadores (CUT-Brasil), Antonio Lisboa, “o momento exige unidade e mobilização em defesa destes camponeses que são presos políticos do governo paraguaio”. “O que podemos ver é que o script se repete em muitos países da América Latina, com a mídia e o judiciário submissos ao que há de mais reacionário, tentando impor o retrocesso, agindo sempre coordenados em defesa dos interesses do grande capital nacional e estrangeiro”, concluiu Lisboa.
SAIBA MAIS - www.somosobservadores.org