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Golpistas trocaram os canhões pela imprensa

Durante 12° CONCUT, Central lança relatório com casos não apurados de trabalhadores vítimas da ditadura e destaca que golpe ainda ronda país com apoio da velha mídia

Escrito por: Luiz Carvalho • Publicado em: 15/10/2015 - 18:05 • Última modificação: 16/10/2015 - 10:30 Escrito por: Luiz Carvalho Publicado em: 15/10/2015 - 18:05 Última modificação: 16/10/2015 - 10:30

Roberto Parizotti Vagner e Solaney durante lançamento do relatório


Um dos temas do 12º Congresso Nacional da CUT (CONCUT), a democracia brasileira é fruto de uma árdua luta da sociedade, em especial, dos movimentos sociais. Se esse conceito é óbvio para muitos brasileiros, para outros é preciso relembrar que a ditadura foi sinônimo de repressão, tortura e corrupção a fim de alertar quem vai às ruas pedir intervenção militar.

Nesta quarta-feira (14), segundo dia de CONCUT e, coincidentemente, data em que morreu o coronel Brilhante Ustra, chefe do DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna – órgão de repressão do governo militar), os trabalhadores deram mais uma contribuição para a liberdade de expressão com o lançamento do Relatório da Comissão Nacional da Memória, Verdade e Justiça da CUT.

Resultado de três anos de pesquisa, o estudo cobra a apuração pela Comissão Nacional da Verdade (CNV) de ao menos 18 assassinatos de trabalhadores por conta de manifestações políticas e atividades sindicais. Com exceção dos garimpeiros massacrados por policiais em Serra Pelada (PA), em 1987, conflito que tem número impreciso de mortes (entre 2 e10), mas deixou 93 desaparecidos, os demais são todos de rurais.

Na apresentação do material, o presidente da CUT, Vagner Freitas, destacou a importância de o país acertar as contas com o passado para não repetir os mesmos erros, especialmente em períodos de propagação do ódio.

“Nunca um tema foi tão atual. Não é o mesmo golpe de 1964 e as armas nãos são as mesmas, não são mais os canhões, são as mentiras da imprensa. Combatemos o golpe de 1964 e impediremos novamente o golpe nas ruas”, disse.

Para aqueles que associam o governo militar com prosperidade, o dirigente comentou um levantamento do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) para lembrar como o período provocou o maior arrocho salarial da história.

Chacinas são filhotes da ditadura

O evento foi particularmente especial para o ex-ministro de Direitos Humanos do governo Lula, Paulo Vannuchi. Torturado durante a ditadura por Brillhante Ustra, ele anunciou ao plenário a morte do coronel, mas pediu que o fato não fosse celebrado.

Para Vannuchi, impunidade no passado resulta em chacinas do presentePara Vannuchi, impunidade no passado resulta em chacinas do presenteA razão era evitar que os delegados do 12º CONCUT respondessem no mesmo patamar a quem prega o ódio e lembrou da invasão ao velório do fundador do PT, José Eduardo Dutra, por pessoas com panfletos com os dizeres “petista bom é petista morto.”

Para Vannuchi, a ideia é evitar que Ustra seja martirizado e fazer com que o torturador continue sendo considerado culpado.

Também de olho no presente, o ex-ministro defendeu que chacinas como as de Salvador, Rio de Janeiro e Osasco são resultado da institucionalização da violência pelo Estado, que mira na juventude afro brasileira e naturaliza ações como a volta dos torturadores.

Para ele, quando a CUT se insere na defesa da apuração e condenação dos repressores, não se trata de um processo revanchista, mas de defesa da justiça.

“Com o relatório, a CUT sintoniza a compreensão de que a memória sobre a ditadura de 1964 se vincula a dois grandes traumas da fundação do país: o genocídio indígena e a escravidão. E especialmente esse último ponto interessa a CUT porque imprime a marca de que o trabalho não vale nada”, disse Vannuchi.

Também ele lembrou que a mídia hoje produz esquecimento sobre seu apoio ao golpe e à ditadura e cobrou que as escolas  tratem do tema com mais profundidade

“A Alemanha não esconde no banco escolar o que foi o nazismo e as crianças se orgulham de serem alemães sabendo que no país houve uma marca intolerável”, afirma Vanucchi. 

História a ser contada

Secretário de Políticas Sociais da CUT, pasta responsável por comandar o Relatório da Comissão Nacional da Memória, Verdade e Justiça da CUT, Expedito Solaney, fez um breve apanhado do processo de construção do grupo em defesa de uma história ainda a ser escrita.

Lembrou que a transição para uma democracia no país foi lenta, gradual e segura como queriam os militares, e somente 20 anos depois o Brasil, ao contrário de outros países da América Latina, resolveu constituir a Comissão Nacional da Verdade, já sob o governo Dilma Rousseff, para investigar os crimes de lesa-humanidade.

A CUT, por sua vez, tomou a iniciativa de criar uma comissão de acompanhamento sobre os impactos à classe trabalhadora e, posteriormente, criou a própria comissão com trabalhadores de todos o estados.

Para Solaney, o êxito desse trabalho depende do engajamento de todas as organizações sindicais que foram sufocadas pelos militares. 

Trabalhadores apresentam material produzido pela CUTTrabalhadores apresentam material produzido pela CUT“Espero que cada sindicato levante sua memória e história. É momento ainda de constituir comissões de memória, porque queremos escrever essa história com nossas próprias mãos”, definiu.

Cooperação internacional

Isso não exclui, porém, a atuação em conjunto com outras frentes. O porta-voz do conselho de trabalhadores da Volkswagen, Jörg Kother, disse que há dois anos a empresa ficou sabendo da relação que sua filial no Brasil manteve com a ditadura.

Mas somente nesta terça-feira (14), pela primeira vez, ele ouviu o depoimento de pessoas que trabalharam na companhia nessa época. Segundo ele, a Volkswagen reconhece a importância de esclarecer os fatos porque foi formada por pessoas que faziam trabalho forçado e por prisioneiros de guerra da ditadura nazista.

“Temos que apontar os responsáveis e trazer essas consequências para o presentes. Temos que aprender e ensinar nossos jovens. além de procurar caminhos para que isso seja ensinado. Uma coisa acredito que aprendemos hoje, a democracia e os direitos humanos precisam ser preservados em todos os lugares”, definiu.

Em entrevista, Kother afirmou que a empresa colocou um historiador à disposição dos trabalhadores e garantiu que, se a empresa não é a única acusada de colaborar com a ditadura, quer ser a primeira a ajudar a jogar luz sobre esse período sombrio do ponto de vista empresarial.

Cooperação internacional – Representante da maior central sindical dos EUA, a AFL-CIO, que apoiou a publicação, Jana Silverman  falou de uma espécie de responsabilidade moral dos movimentos progressistas em defender a democracia na América Latina, onde governos golpistas estadunidenses apoiaram o golpe direto ou indiretamente.

Citou a Operação Condor, que nos anos de 1970 e 1980 financiou ditaduras pelo continente e falou que o mesmo modelo intervencionista se propaga hoje por meio do apoio a guerras no Iraque, Afeganistão e a sustentação do golpe contra o atual governo.

“Por isso apoiamos o relatório da CUT. Porque para nossos mortos, não queremos nenhum minuto de silêncio e sim toda uma vida de luta. Viva a CUT e ditadura nunca mais!”

 

Título: Golpistas trocaram os canhões pela imprensa, Conteúdo: Um dos temas do 12º Congresso Nacional da CUT (CONCUT), a democracia brasileira é fruto de uma árdua luta da sociedade, em especial, dos movimentos sociais. Se esse conceito é óbvio para muitos brasileiros, para outros é preciso relembrar que a ditadura foi sinônimo de repressão, tortura e corrupção a fim de alertar quem vai às ruas pedir intervenção militar. Nesta quarta-feira (14), segundo dia de CONCUT e, coincidentemente, data em que morreu o coronel Brilhante Ustra, chefe do DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna – órgão de repressão do governo militar), os trabalhadores deram mais uma contribuição para a liberdade de expressão com o lançamento do Relatório da Comissão Nacional da Memória, Verdade e Justiça da CUT. Resultado de três anos de pesquisa, o estudo cobra a apuração pela Comissão Nacional da Verdade (CNV) de ao menos 18 assassinatos de trabalhadores por conta de manifestações políticas e atividades sindicais. Com exceção dos garimpeiros massacrados por policiais em Serra Pelada (PA), em 1987, conflito que tem número impreciso de mortes (entre 2 e10), mas deixou 93 desaparecidos, os demais são todos de rurais. Na apresentação do material, o presidente da CUT, Vagner Freitas, destacou a importância de o país acertar as contas com o passado para não repetir os mesmos erros, especialmente em períodos de propagação do ódio. “Nunca um tema foi tão atual. Não é o mesmo golpe de 1964 e as armas nãos são as mesmas, não são mais os canhões, são as mentiras da imprensa. Combatemos o golpe de 1964 e impediremos novamente o golpe nas ruas”, disse. Para aqueles que associam o governo militar com prosperidade, o dirigente comentou um levantamento do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) para lembrar como o período provocou o maior arrocho salarial da história. Chacinas são filhotes da ditadura O evento foi particularmente especial para o ex-ministro de Direitos Humanos do governo Lula, Paulo Vannuchi. Torturado durante a ditadura por Brillhante Ustra, ele anunciou ao plenário a morte do coronel, mas pediu que o fato não fosse celebrado. A razão era evitar que os delegados do 12º CONCUT respondessem no mesmo patamar a quem prega o ódio e lembrou da invasão ao velório do fundador do PT, José Eduardo Dutra, por pessoas com panfletos com os dizeres “petista bom é petista morto.” Para Vannuchi, a ideia é evitar que Ustra seja martirizado e fazer com que o torturador continue sendo considerado culpado. Também de olho no presente, o ex-ministro defendeu que chacinas como as de Salvador, Rio de Janeiro e Osasco são resultado da institucionalização da violência pelo Estado, que mira na juventude afro brasileira e naturaliza ações como a volta dos torturadores. Para ele, quando a CUT se insere na defesa da apuração e condenação dos repressores, não se trata de um processo revanchista, mas de defesa da justiça. “Com o relatório, a CUT sintoniza a compreensão de que a memória sobre a ditadura de 1964 se vincula a dois grandes traumas da fundação do país: o genocídio indígena e a escravidão. E especialmente esse último ponto interessa a CUT porque imprime a marca de que o trabalho não vale nada”, disse Vannuchi. Também ele lembrou que a mídia hoje produz esquecimento sobre seu apoio ao golpe e à ditadura e cobrou que as escolas  tratem do tema com mais profundidade “A Alemanha não esconde no banco escolar o que foi o nazismo e as crianças se orgulham de serem alemães sabendo que no país houve uma marca intolerável”, afirma Vanucchi.  História a ser contada Secretário de Políticas Sociais da CUT, pasta responsável por comandar o Relatório da Comissão Nacional da Memória, Verdade e Justiça da CUT, Expedito Solaney, fez um breve apanhado do processo de construção do grupo em defesa de uma história ainda a ser escrita. Lembrou que a transição para uma democracia no país foi lenta, gradual e segura como queriam os militares, e somente 20 anos depois o Brasil, ao contrário de outros países da América Latina, resolveu constituir a Comissão Nacional da Verdade, já sob o governo Dilma Rousseff, para investigar os crimes de lesa-humanidade. A CUT, por sua vez, tomou a iniciativa de criar uma comissão de acompanhamento sobre os impactos à classe trabalhadora e, posteriormente, criou a própria comissão com trabalhadores de todos o estados. Para Solaney, o êxito desse trabalho depende do engajamento de todas as organizações sindicais que foram sufocadas pelos militares.  “Espero que cada sindicato levante sua memória e história. É momento ainda de constituir comissões de memória, porque queremos escrever essa história com nossas próprias mãos”, definiu. Cooperação internacional Isso não exclui, porém, a atuação em conjunto com outras frentes. O porta-voz do conselho de trabalhadores da Volkswagen, Jörg Kother, disse que há dois anos a empresa ficou sabendo da relação que sua filial no Brasil manteve com a ditadura. Mas somente nesta terça-feira (14), pela primeira vez, ele ouviu o depoimento de pessoas que trabalharam na companhia nessa época. Segundo ele, a Volkswagen reconhece a importância de esclarecer os fatos porque foi formada por pessoas que faziam trabalho forçado e por prisioneiros de guerra da ditadura nazista. “Temos que apontar os responsáveis e trazer essas consequências para o presentes. Temos que aprender e ensinar nossos jovens. além de procurar caminhos para que isso seja ensinado. Uma coisa acredito que aprendemos hoje, a democracia e os direitos humanos precisam ser preservados em todos os lugares”, definiu. Em entrevista, Kother afirmou que a empresa colocou um historiador à disposição dos trabalhadores e garantiu que, se a empresa não é a única acusada de colaborar com a ditadura, quer ser a primeira a ajudar a jogar luz sobre esse período sombrio do ponto de vista empresarial. Cooperação internacional – Representante da maior central sindical dos EUA, a AFL-CIO, que apoiou a publicação, Jana Silverman  falou de uma espécie de responsabilidade moral dos movimentos progressistas em defender a democracia na América Latina, onde governos golpistas estadunidenses apoiaram o golpe direto ou indiretamente. Citou a Operação Condor, que nos anos de 1970 e 1980 financiou ditaduras pelo continente e falou que o mesmo modelo intervencionista se propaga hoje por meio do apoio a guerras no Iraque, Afeganistão e a sustentação do golpe contra o atual governo. “Por isso apoiamos o relatório da CUT. Porque para nossos mortos, não queremos nenhum minuto de silêncio e sim toda uma vida de luta. Viva a CUT e ditadura nunca mais!”  



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