Marcos Benedito
Publicado: 11 Outubro, 2007 - 17h56
Escrito por: Coordenador da Comissão Nacional Contra a Discriminação Racial da CUT destaca importância do Conneb
Em entrevista ao Portal do Mundo do Trabalho, o coordenador da Comissão Nacional Contra a Discriminação Racial da CUT, Marcos Benedito analisa a importância do Congresso Nacional dos Negros e Negras do Brasil (Conneb) para a formulação e concretização de ações afirmativas que, começando a saldar uma dívida histórica com os afro-descendentes, fortaleçam cada vez mais a dignidade e a auto-estima da negritude brasileira.
Quais os objetivos do evento?
A proposta do Congresso Nacional dos Negros e Negras do Brasil (Conneb) é formatar um projeto político que contemple as necessidades, os anseios e vontades do povo negro. Para isso estamos organizando o Congresso e já realizamos algumas etapas, como os encontros regionais e estaduais. No dia 11, na Assembléia Legislativa de São Paulo, acontece a cerimônia de abertura e nos dias 12, 13 e 14 estaremos participando do evento.
E o mundo do trabalho?
Precisamos entender uma questão. Temos o objetivo que no meu ponto de vista contempla o movimento negro, aquele que atua mais na área social, e temos os objetivos dos trabalhadores, que é aí onde entra a ação da CUT. Nossa preocupação e compromisso é no sentido de também contemplar o mundo do trabalho, que é fundamental para garantir o sustento, a dignidade e auto-estima para os indivíduos.
Quais os avanços e os obstáculos a serem superados?
Hoje já temos alguns avanços, como por exemplo a questão das quotas nas universidades públicas, que contribuem para uma democratização do ensino. Nós temos as políticas afirmativas que estão em curso, as políticas desenvolvidas pela Seppir (Secretaria Especial para a Promoção da Igualdade Racial), que tem a ministra Matilde Ribeiro como responsável lá em Brasília, temos algumas pautas, entre elas a questão das reparações - e entendemos ser de fundamental importância que o Brasil comece a discuti-las; temos as políticas que vêm sendo desenvolvidas em relação aos quilombolas, a legitimação à propriedade da terra dos quilombos... Nós temos que reconhecer que o governo federal tem desenvolvido algumas iniciativas que são importantes, embora possam ser aprofundadas e melhorar bastante, inclusive com a contribuição da nossa Central. Para isso precisamos cada vez mais dialogar, debater coletivamente e apontar diretrizes e alternativas, propor soluções e novas conquistas para o povo negro. Este é o nosso papel enquanto Comissão Nacional Contra a Discriminação Racial.
A luta é por uma democracia plena...
Enquanto trabalhador, para nós, é de fundamental importância a democratização do trabalho, ou seja, que as empresas implementem ações e políticas afirmativas no sentido de compensar ou de nos devolver aquilo que nos foi tirado. Entendemos que no Brasil ainda não atingimos uma democracia plena. O povo no geral ainda não tem os seus direitos todos conquistados e se muitos desses direitos, que são básicos, continuam desrespeitados, em relação ao negro e à negra, ao povo negro, a situação é ainda mais grave. Eu falo porque além do acirramento da crise social, de termos graves problemas, soma-se a isso a questão do preconceito e do racismo. Isso é evidente, pois se constata a olho nu. Nosso país tem ainda uma proporção muito grande de racismo, herdada de sua história, de sua trajetória, que precisamos coletivamente superar.
Esses avanços sinalizam uma nova perspectiva de afirmação para a negritude. Como isso impacta na participação da comunidade negra?
Nós podemos apontar o surgimento do Movimento Negro Unificado, em 1978, como o início de um patamar de enfrentamento diferenciado. Nós tivemos em outros momentos da história do Brasil outras iniciativas no sentido de combater as conseqüências perversas e degradantes do racismo, mas o MNU, como movimento de resistência e de luta, iniciado ali nas escadarias do Municipal, foi na minha opinião o momento em que nós começamos a estabelecer uma nova forma de enfrentamento. O que podemos dizer é que a partir daí surgiram outras entidades que representam esse novo patamar de lutar contra o racismo, como a Unegro, a Coordenação Nacional de Entidades Negras (Conen), a organização das entidades de religião de matrizes africanas, os evangélicos negros, a Comissão Nacional Contra a Discriminação Racial da CUT, que neste momento estou como coordenador.
Há uma convergência extremamente positiva neste momento...
Enquanto CNCDR, estamos buscando uma aproximação com o movimento negro, que vê este processo a partir de um ponto de vista mais social, das leis, da violência. Assim, existe algo que as demandas do movimento negro não contemplam, particularmente em relação ao mundo do trabalho, daí a importância da nossa Comissão Nacional. Então esta aproximação faz com que esse leque de reivindicações, essas iniciativas pela superação do racismo, amplie nossa força, pois une as diferentes características, potencializando nossa luta. Os sindicalistas que compõem a Comissão, são aqueles que, lá na base estão preocupados e batalhando em relação ao emprego, ao reajuste salarial, pela melhoria das condições de vida e de trabalho. Então, quando estão militando na CNCDR acabam juntando também a questão do combate ao racismo, o que acaba agregando, pois ao unir as demandas, fortalecendo a pressão, a possibilidade de obter êxito é maior. O Congresso acaba tendo esta característica e a CUT está contribuindo bastante ao levar a preocupação do mundo do trabalho para dentro do Conneb, de uma forma específica e ao mesmo tempo contundente.